Nos últimos dias, o sol e o calor deram lugar à chuva, trovoada e queda intensa de granizo. A instabilidade meteorológica registada a 26 e 28 de abril provocou danos consideráveis em algumas explorações agrícolas no Concelho, apanhando muitos agricultores desprevenidos.
No Concelho de Mesão Frio, as zonas mais afetadas situam-se entre os 460 e os 600 metros de altitude, onde o granizo atingiu culturas em fase sensível de desenvolvimento, especialmente as vinhas.
A área atingida estende-se por cerca de 30 hectares, sobretudo em Vila Marim, nas localidades de Ventuzelas, Mártir e Donsumil e também na freguesia de Mesão Frio (Santo André), nomeadamente no lugar do Rojão e Brunhais. Em Barqueiros, os danos foram pontuais e pouco significativos. O fenómeno seguiu uma trajetória de norte para sul, atingindo sobretudo vinhas de encosta em socalcos, caracterizadas por pequenas parcelas e, na sua maioria, não mecanizadas.
Pedro Pires, presidente da Adega Cooperativa de Mesão Frio, refere que foram realizadas amostragens em várias vinhas para avaliar os prejuízos: “para além da perda de folhas e cachos, registaram-se danos na própria estrutura das videiras. Apesar do aparecimento de novos ramos, ainda é incerto o impacto no ciclo vegetativo da planta. Claro que vão nascer novos ramos, mas não sabemos até que ponto isso vai prejudicar a videira. E esse tipo de dano não é coberto pelo seguro, que protege apenas a produção.”
João Queiroz, proprietário de um terreno no Lugar do Miradouro, na freguesia de Vila Marim, estima uma quebra de cerca de 30% na produção: “A vinha apresenta pâmpanos partidos, cachos e folhas no chão. Sendo sócio da Adega Cooperativa de Mesão Frio, poderei beneficiar do seguro coletivo de colheita e já apresentei a minha participação. Entretanto, para minimizar os estragos, adquiri um produto à base de cálcio para ajudar na cicatrização da planta”, afirmou.
Também em Vila Marim, Júlia Conde descreve um cenário de grande destruição:
“Em alguns sítios, só ficaram os ‘pauzinhos’ das videiras. Tive muitos estragos nas árvores de fruto, na vinha e nas oliveiras. É um investimento onde nós passamos a nossa vida. Eu tenho 83 anos e não tenho memória de uma queda de granizo assim, nem de umas pedras de granizo deste tamanho.”
Hermínio Cardoso, também ele habitante em Vila Marim, lamenta perdas entre 50% e 60% nas suas culturas, incluindo cebolas, batatas, vinha e olival: “eu estava na Vila, mas a minha mulher ligou-me a informar do que estava a acontecer. Eu nem queria acreditar!”
No lugar do Rojão, Lina Teixeira e Maria dos Remédios Félix registaram danos severos em culturas como cebolo, tomate e morango. Apesar da pequena dimensão das explorações, os prejuízos são significativos. Lina Teixeira estima perdas na ordem dos 150 euros e de muito tempo dedicado do seu dia a dia.
Maria Rosende relata efeitos do temporal na Rua da Cal, em Vila Marim: “o granizo afetou-me as culturas de batatas, feijões, tomate e cebolas. Nunca vi nada assim na minha vida! Eu até tirei fotografias! O granizo quando acumulou parecia que tinha caído uma camada de neve. Tive muito medo, foi assustador, terrível”, afirma.
Segundo o presidente da Cooperativa, todos os sócios da Adega possuem seguro de colheitas, embora este cubra apenas a produção e não os danos nas videiras, justificando a importância de os agricultores aderirem a seguros agrícolas: “se não houver seguro, não há acesso ao fundo de calamidades. É uma proteção essencial e acessível para os agricultores”, declarou, sublinhando a importância de os produtores de uvas se tornarem sócios da Adega, para quando necessitarem de recorrer aos apoios.
“O estado frágil das videiras, nesta altura do seu ciclo vegetativo e o tamanho das pedras de granizo caídas com cerca de um a dois centímetros de diâmetro, provocaram queda instantânea em muitos cachos e fraturas na estrutura central do cacho de uvas, o que a curto prazo vai provocar a queda parcial ou total”, diz ainda Pedro Pires, que já realizou uma avaliação dos riscos no terreno, estando também concluído um relatório sobre a dimensão dos prejuízos.
Recorde-se que o Concelho de Mesão Frio está sob aviso amarelo devido à previsão de precipitação forte, trovoada e possibilidade de queda de granizo, até às 21 horas de hoje.

